Das duas uma

Bebi um café, fumei um cigarro à janela com um frio desalmado que me transmitia mensagens de recolhimento ao quente dos lençóis, porque subitamente deu-me uma vontade louca de escrever. Eu sei porquê. Porque pensei, porque senti, porque lembrei-me de uma conversa com um amigo meu que tive em tempos próximos. Ele dizia-me que não concordava que os acontecimentos tivessem alguma interferência de algo ou alguém acima de nós. Deus, poder superior, energias, ou outra coisa qualquer que nós humanos não conseguissemos identificar, afinal somos tão pequenos no meio do universo como poderiamos compreender tal? É confortável para mim sentir que alguém olha por mim. Julgo que já tenha tido essa sensação, arrisco em dizer que possivelmente hoje não estava a escrever estas palavras se isso não me tivesse acontecido.
Nada acontece por acaso, e mais tarde descobrimos o porquê de tal, seja lá o que for, ter acontecido. Afinal nem sempre podemos compreender no momento o que nos está acontecer. Esta era a questão. Este era o tema da nossa conversa de 10 minutos. A opinião dele está bem explícita e até ficou escrita em tempos passados - http://www.ofimdacancao.blogspot.com/2006/10/conceptual-concepo-conceito_16.html.
Não me é difícil compreender o seu ponto de vista, pelo contrário. Se fizer uma retrospectiva de acontecimentos ou sentimentos, hoje, consigo perceber que eles todos tiveram o seu caminho com um determinado ponto de partida e com o seu ponto de chegada no momento em que olho para trás e me proponho a olhar para o percurso feito. Todavia, mesmo assim, e mesmo tentando ter algum pragmatismo mental e racional, não me consigo libertar do conforto que o acreditar em algo bem mais superior a mim, transforma o meu presente em algo futuro com uma explicação simples e bonita.
Romantismo, sensibilidade, crença, lunatismo, dirão uns, outros como eu talvez apenas sintam que é assim porque é, porque preciso que seja, porque sim.
Sonhador como sou, facilmente consigo dar um toque especial aos acontecimentos que me vão passando à minha frente. O olhar, o cheiro, o toque, o sorriso, o momento, o desejo, a todos eles lhes dou a devida importância - muita! É com eles que consigo dormir a desejar que acorde no dia seguinte. É com eles que me rio, choro, sofro, vivo. O foco luminoso com que lhes dou importância não se apaga, pelo menos tento. Basta ir tentando para que consiga realizar e permanecer crente ao que é meu, ao meu interior, aquilo que está no topo, ao que gosto, ao que acredito, o coração. Este órgão primordial para a minha sobrevivência, torna-se também primordial à minha reação, ação.
Apetecia-me ser mais específico ou escrever de forma astuciosa para que não se conseguisse ler nas entrelinhas. Gostava que quem lesse este texto conseguisse ir mais além do que está escrito, mas não é possível! Ou talvez seja dependendo de quem o leia... ou até mesmo seja claro para todos tão somente pelo facto de que cada um tem a sua experiência, compreensão. Eu não consigo ver tudo claro o que outros vêm com simplicidade e clareza. Um pouco à semelhança das duas pessoas a olhar para uma obra de arte e dizerem o que vêm. Todas elas têm razão sobre o que descrevem. Ambas têm a sua verdade, a verdade que lhes sai do coração.
Bem, mas o que sai daqui? Penso que não seja importante para todos. Para mim é porque sai do coração.
Só por hoje decidi não desistir daquilo que sinto, mesmo sabendo que poderá ser difícil obtê-lo. Mas eu quero tanto... Por vezes fantasio que o mundo parasse por uns tempos. Apenas eu e os meus sonhos permanecessem em atividade, para poder vivê-los. É como se fosse impossível vivê-los com tudo em movimento à minha volta. Eu acredito. Não que o mundo pare, mas que mais tarde ou mais cedo me seja concedido alguns deles. Mais tarde vou compreender, eu sei, eu sei porque o meu coração assim me diz. Ultimamente tenho receio de sonhar. Seja por existir alguém superior a mim que me realize tais desejos, seja por olhar no ponto de chegada e constatar que a conjugação de factos passados me levaram à construção de um entendimento da história, já dizia esse meu amigo, mesmo que não fosse a realização de tais sonhos.
Não é claro, é turvo, é aquilo em que cada um acredita ou que o coração lhe diz que seja.
Vou ver se ainda está um frio desalmado...

4 comentários:

  1. Em primeiro lugar, vem à minha mente a pergunta: é válido acreditar em Deus? Blaise Pascal, matemático e filósofo francês, achava que sim. Segundo ele,

    Deus existe ou Deus não existe… Que apostarás tu? De acordo com a razão, não poderás fazer nem uma coisa nem outra; de acordo com a razão não poderás defender nenhuma das opções… mas deves apostar. [E quanto à] tua felicidade? Pesemos ganhos e perdas apostando que Deus existe… Se ganhares (a aposta), ganhas tudo; se perderes, não perdes nada.
    Aposta então, sem hesitação, que Ele existe.

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  2. Não sou muito dado ao jogo, mas sim... vou fazer essa aposta.
    Thanks for the comment.

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  3. Porque o presente nos doí por, precisamente, Blaise Pascal. Sr. que começa a fazer parte da minha vida.

    "Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
    Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos."

    Não que concorde na inevitabilidade final e ao fim ao cabo, este inevitável evita-se pela crença. Somente.
    Em todo o caso essa crença será naquilo que cada um quiser. E essa é que é válida.

    Ass: pes

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  4. Começo também a gostar deste homem...
    tks pes ;)

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